Pesquisador da UnC coordena trabalhos no Programa Antártico Brasileiro


  • 11 de Fevereiro de 2019

Após permanecer cerca de 50 dias na Antártida, o professor Doutor Luiz Carlos Weinschütz, Coordenador do Centro Paleontológico da Universidade do Contestado, localizado no Campus da UnC em Mafra, retornou de sua terceira expedição ao Continente, onde esteve coordenando uma equipe de pesquisadores nos meses de dezembro/2018 e janeiro/2019.

O Projeto de Pesquisa intitulado PALEOANTAR, faz parte dos vários projetos aprovados pelo Programa Antártico Brasileiro (PROANTAR), e realizados durante o XXXVII OPERANTAR.

O Projeto PALEOANTAR tem na coordenação geral o Prof. Dr. Alexander Kellner do Museu Nacional da UFRJ, e conta com a participação de pesquisadores de diversas instituições nacionais e estrangeiras, dentre elas a UnC. Este projeto tem como principais objetivos a prospecção, coleta e estudos de fósseis do Cretáceo (80 a 65 milhões de anos) da porção leste da Península Antártica, principalmente na região que compreende o arquipélago de James Ross, e está na sua quinta edição com previsão de pelo menos outras quatro campanhas de campo.

O Grupo – A equipe foi composta pelo Prof. Dr. Luiz Carlos Weinschütz da UnC, Mafra/SC (Coordenador); pelo Prof. Dr. Alessandro Batezelli da UNICAMP, Campinas/SP; pelo Mestrando Geovane Alves de Souza da UFRJ, Rio de Janeiro/RJ; pelo Pesquisador João Alberto Ferreira Matos da UFU, Uberlândia/MG, e pela Alpinista Yoshimi Nagatami. Uma segunda equipe do Paleontar, coordenada pelo Prof. Dr. Rodrigo Giesta Figueiredo da UFES, ficou acampada na Ilha James Ross com outros 3 participantes.

O Local da Pesquisa – O grupo de pesquisadores ficou acampado na Ilha Vega, que faz parte do arquipélago James Ross, situado na parte Leste da Península Antártica, as margens do mar de Weddell, a aproximadamente 250km ao sul da Base Brasileira Comandante Ferraz (situada na ilha Rei George).

Por que a ilha Vega? – Na região do Arquipélago James Ross, do qual a Ilha Vega faz parte, ocorrem porções de rochas sedimentares com idade próximas a 80 milhões de anos, onde podem ser encontrados vestígios de animais e plantas que viveram neste intervalo de tempo. Todos estes fósseis nos contam que o continente Antártico era bem diferente há milhões de anos do que é hoje. No Cretáceo ele era coberto por florestas com coníferas e samambaias onde dinossauros caminhavam, as praias eram de águas rasas com tubarões, amonites e repteis marinhos como o plesiossauro. Vale lembrar que neste tempo todo o nosso Planeta era bem mais quente do que é hoje, a Antártida estava recém separada do Gondwana (grande continente que era formado pela América do Sul, Antártida, África, Índia e Austrália).

O Acampamento – Toda a logística de transporte dos pesquisadores para a Antártica é feita pela Marinha do Brasil através da CECIRM, com o apoio da FAB para alguns voos de travessia. O grupo de pesquisadores seguiu para a Antártica num voo da FAB (Hercules) que saiu da cidade de Punta Arenas(CHI) no dia 30/10/18  até a Base Chilena na Antártida de Frei Montalva, lá o grupo foi embarcado no Navio de Apoio Oceanográfico Ary Rongel, seguindo para Ilha Rei George, onde fica a base Brasileira e em seguida para a Península Antártica. O grupo foi lançado na Ilha Vega no dia 03/11/18 após um voo de helicóptero para reconhecimento prévio realizado pelo coordenador do grupo. No total foram realizados 32 voos entre o navio e o local determinado para o lançamento dos pesquisadores, gêneros alimentícios e material de acampamento e prospecção. No dia 22/01/19 o grupo bem como todo o equipamento e o material resultante das coletas foi recolhido ao navio, totalizando 50 dias acampados, o que é considerado um dos mais extensos acampamentos já realizados por pesquisadores brasileiros na Antártida. A travessia para a Punta Arenas foi feita de navio, num total de 5 dias, passando pelo terrível Mar de Drake.

Trabalhos de Campo – A partir de uma programação prévia baseada em cartas topográficas, mapas geológicos e pelo estudo de trabalhos publicados, foi definido o plano de ação que constituía basicamente de duas atividades principais: Prospecção e Coleta de fósseis, que se dava por caminhamentos nas porções de rocha aflorante da ilha, e Levantamento Geológico, que era feito pelo detalhamento das rochas onde os fósseis estavam inseridos. Concomitantemente todo material coletado era devidamente catalogado e embalado para posterior transporte de volta ao Brasil.

As Dificuldades – O Continente Antártico apresenta condições severas para a sobrevivência humana, trata-se da região que mais venta no planeta, é a região com as menores temperaturas já registradas, e também considerada a região mais seca da Terra, e embora o grupo tenha acampado no verão e a Nordeste da península, a natureza sempre mostra porquê que a civilização humana até um século e pouco não conseguia habitar essa região do globo.

O Prof. Luiz conta que nesses 50 dias de acampamento raramente a temperatura ficou positiva, e quando acontecia era em torno de 0,5ºC a 1,5ºC, na média ficamos próximos aos -5ºC com mínimas de -10ºC.

Essa temperatura fria era potencializada na sua sensação pelos constantes ventos que assolam aquela região da Antártida. Para se ter uma ideia, com a temperatura de -5ºC e ventos de 30km/h (comuns na região), a sensação térmica é de -25ºC. Raramente ocorreram dias com pouco vento, sendo que em algumas ocasiões o vento atingiu 110km/h, o suficiente para pôr em risco a segurança do acampamento, inclusive com a quebra da barraca do coordenador do projeto.

Acostumar a dormir com claridade levou um certo tempo, pois nessa época do ano não tem noite na Antártida, o sol não chega a se pôr abaixo da linha do horizonte.

Outra dificuldade sentida pelo grupo foi a dificuldade de comunicação com familiares e amigos. O grupo tinha a disposição um celular por satélite, mas com pouca possibilidade de uso pessoal, pois o mesmo era para utilização em caso de emergência extrema.

A travessia do Mar de Drake (considerado o mais revolto do planeta) durante nossa volta foi no mínimo uma dificuldade interessante, embora todos os marinheiros relataram que a passagem pelo Drake foi tranquila, para os pesquisadores passar 40horas chacoalhando com ondas de 3 metros pareciam horas intermináveis “entocados” nos seus camarotes.

Os Resultados – No geral o resultado obtido nessa etapa de campo foi considerado excelente pelo grupo, foram descritos 24 pontos de informação geológica, quatro áreas de grande ocorrência de fósseis, foram coletadas mais de 1 tonelada de amostras e descritos dois perfis geológicos.  Todos estes dados, amostras e fósseis coletados irão servir de base para trabalhos que sucederão a esta etapa de campo e gerarão artigos científicos que contribuirão para um melhor conhecimento do que foi o passado remoto da Antártida, contribuindo para o Programa Antártico Brasileiro, tendo em vista que nosso país faz parte do Tratado Antártico, e tem o dever de gerar conhecimentos sobre o continente gelado. No total foram coletadas 1,2 toneladas de amostras, que serão em sua grande maioria inseridas no acervo do Museu Nacional, e uma parte será disponibilizada para as demais instituições participantes, incluindo a UnC que deverá organizar uma exposição sobre o tema junto ao Museu da Terra e da Vida/CENPALEO.